quinta-feira, 9 de março de 2017

Até ontem seria lindo ver o pôr do sol


O engraçado é que até ontem eu poderia ir com você. Sim, até ontem. Agora não. Agora as coisas desandaram, eu já desfiz a mala, tirei o batom e coloquei os pés sobre a mesinha de frente a porta.
Mas até ontem eu poderia ir com você.
A vida da gente passa assim meu bem, passa cheia de 'hoje's que viram 'ontem's e, é meio óbvio dizer isso, mas o ontem já está fora de mim e fora de você. Mas era só até ontem.
Eu não sei o que dizer. Essa é a verdade. Eu não queria dizer. Eu queria ir com você. Quando você me perguntou como eu estava eu queria dizer "Não. Não estou bem." Porque na verdade o que eu queria mesmo era estar ao seu lado, montando nossos planos, fazendo nossas apostas, comentando onde vamos parar e onde vamos comer. E como vai ser lindo ver o pôr do sol ao seu lado. Ou melhor, seria. Porque, até ontem, seria lindo ver o pôr do sol ao teu lado.
Eu pensei em te ligar.
Eu pensei em ir até sua casa.
Pensei em bater na sua porta e dizer "Eu estou aqui. De carne e osso. De sonho e alma, porque é assim que eu sei viver. Isso é o que eu tenho. Eu tenho a mim, e quero passar o meu tempo com você".
Eu quase fiz. Eu passei essa cena na minha mente como se passam as cenas de cinema. Dei replay algumas vezes.
Eu não o fiz porque não sou roteirista. Não sou eu que escrevo o filme. Estou contigo nessa.
Eu olho para você e respeito seu silêncio, admiro sua força. E só tenho a admirar.
Se há de haver outros amanhãs para a gente fazer de conta eu não sei. Se haverá outros pores do sol, outras músicas, outras danças... também não sei.
O que eu sei é que da próxima vez serei mais eu do que fui ontem. E mais clara do que as muitas Clarices que eu já fui.
Dessa vez foi até ontem, mas das próximas não vou esperar até amanhã para dizer "Sim, eu sei aonde eu quero estar."

segunda-feira, 6 de março de 2017

A vida é curta e maravilhosa demais para se economizar amor


A vida é curta demais para não se deixar amar. Para não se amar até o coração doer. É curta demais para segurarmos lágrimas, contermos abraços, economizarmos risos. A vida é curta e maravilhosa demais para se economizar amor.

A vida é curta demais para não voar pelo medo de cair, para ter medo de avião, para não dançar quando da vontade. É curta demais para não cortarmos as amarras que nos impedem de ser feliz. É curta para se ter medo do escuro, medo de si mesmo, medo do amanhã.

A vida é curta demais para se guardar rancores porque o ego está ferido, para se poupar de amores pelo medo de se machucar. A vida é curta para não se deixar fugir de vez em quando, para não tomar um banho de sol, não ouvir um passarinho, não beijar uma flor. A vida é curta para não se deixar descobrir e amar cada pedacinho da gente, mesmo aqueles que há muito não veem a luz.

A vida é curta demais para ficarmos dias pensando se algo é certo ou errado e não ouvir o nosso coração. E quando eu digo ouvir o coração não quero dizer das emoções. Pois as emoções são estrondosas, avassaladoras e, muitas vezes, precipitadas e desordenadas. O coração não. O coração fala baixinho, fala manso e de forma suave. Ele é certo e claro.

O coração vê saída onde a gente achava que não existia. Ele dói quando está triste e se esbanja quando está feliz. Pede para afastarmos quando estamos perto de alguém que não nos faz bem e abraça o universo quando se está com alguém que ama.

Ouvir o coração não é fácil. Não nos acostumamos, não sabemos nem mesmo onde procurar. Para se ouvir o coração é preciso calar a mente, deixar tudo que está latente vir e ir. É preciso abrir mão dos julgamentos, das condenações, da procura pelos culpados, mesmo aqueles que estão dentro de nós.  Ouvir o coração é como ouvir o vento. É preciso silêncio, recolhimento, entrega.

Já estive em situações em que o meu coração queria ficar e eu queria ir. E também já estive em situações em que eu queria ficar e meu coração queria ir. Então eu ficava confusa, tentava fazer planilhas, listas, pontos positivos e negativos. Tentava esmagar um pedaço de mim para fazer caber. Cada vez que eu fazia isso meu coração doía, porque ele não quer saber de planilhas, de contas, de um milhão de cálculos. Ele só quer saber de amar. E ele é capaz de abrir caminhos quando precisa. Caminhos que a nossa mente não enxerga, mas ele sabe, porque conhece.

Hoje eu já vejo que não se toma decisões à força. Quantas vezes eu precisei arrancar um pedaço de mim e depois fiquei sangrando.

Quando vem a dor. Uma delas. Qualquer uma. Temos tantas dores. Dores da alma, dores do corpo, dores da mente. Quando vem a dor tudo o que queremos é tirá-la, arrancá-la do peito, custe o que custar.

Nessas horas o coração pede tempo, pede para ser ouvido, para ser abraçado. O coração pede para a gente se alinhar, pede para mostrar o caminho. Por que quando o coração se alinha tudo fica mais fácil, a gente se entrega. Quando há entrega não importa tanto o caminho, mas o simples caminhar.

A vida é curta,
maravilhosa 
e sábia demais para a gente não se deixar amar.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O pedaço que eu arranquei


Deixa como está que é melhor assim.

Meu coração já sentiu tanto que minha mente muitas vezes não reage aos sentimentos. Eu já não sei querer, não sei gostar. Pelo menos não assim. Senti tanta paixão que fui anestesiada.
Eu me lembro do dia. Foi ao som de Lifehouse entre soluços e lençóis na escuridão do meu quarto. É verdade que eu não achei que fosse acontecer, mas eu escolhi. Escolhi não ceder à dor, escolhi sair do apagão ainda que precisasse arrancar meu peito fora, ainda que precisasse tirar o sentimento à força.
E foi assim que tirei um pedaço de mim. Um pedaço adolescente, entregue e imaturo, confesso. Mas também um pedaço meu. Um pedaço que era capaz de se entregar, de se deixar levar pelas ilusões, um pedaço que ouvia as palavras e acreditava. Um pedaço que era capaz de sonhar com pessoas e amores.
Eu juntei os caquinhos, os restos duros de estilhaços.

Quando reconstruí meu coração já não vi o tal pedaço. Deve ter ficado debaixo da cama. Sei que para encontra-lo vou precisar tatear, na escuridão. Mais uma vez.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Não quero ser gaveta

Adoro revirar minhas gavetas. São quase uma extensão de mim. Ficam cheias daqueles papeizinhos que a gente se dispõe a ler depois, esperando o dia que vai ter tempo. Tempo que a gente nunca tem.
Mania estranha essa. Acho que é o medo de precisar de algo e não ter. Uma segurança ilusória. Outro dia mesmo li uma piada e ri de novo - Tem condições? -. Morro de medo de remexerem minha gaveta. Se tenho medo porque não escondo?
Gaveta parece um pedaço da gente, aquele que a gente não mostra, mas dá uma alegria cúmplice em contar para os amigos.
E aí me pergunto mais uma vez: quantas vezes eu peguei aquele papel, o mesmo papel, e disse que iria jogar fora? Não joguei. Como eu disse: segurança.
A verdade é que nunca vi gaveta organizada por muito tempo. A gente coloca ali o que quer 'esconder', seja da mãe ou das visitas. Talvez sejam as gavetas a alma dos quartos, ou da casa. Alma a gente oculta, mas não esconde.
Engraçado mesmo é pensar que podemos estar na gaveta de alguém e nem saber. Sempre ali para quando este alguém precisar de carinho ou de lembranças. Aí, quando necessários, somos tirados do escuro e da solidão. Depois colocados novamente.
Tem gente pra quem não quero ser gaveta. Quero ser porta-retrato de cabeceira.

terça-feira, 29 de março de 2016

A aventura continua

É aqui que a aventura continua.
Hesitei um pouco ao clicar em "Nova postagem". Vi o mouse sobre a letra, que ficava azul e sublinhada. Quase não cliquei. Mas a vida tem dessas coisas, que a gente quase faz. Entre o quase e o fazer impera o abismo. O abismo dos medos e dos receios. O abismo das ideias que nunca se tornaram tentativas. Eu ando visitando muito esse abismo. Entrando em uma queda livre. E não é das boas, não é como pular de para-quedas. É cair e perder o rumo.
Então hoje eu fiz diferente. Hoje eu cliquei. Hoje eu escrevi meu nome no muro. Hoje eu mandei uma mensagem pra alguém querido. Hoje eu descruzei as pernas e olhei no olho.
Caraca, como é bom isso.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

E os anseios da alma?

Lembro-me que quando criança aprendi sobre a escritura em Mateus que diz que o que buscarmos encontraremos, o que pedirmos nos será dado e ao bater será aberto. Sempre que pensava nessa escritura eu pensava a que exatamente Deus se referia e como poderiam todos os nossos pedidos serem atendidos. Pensava o que aconteceria, por exemplo, se todos pedissem para ganhar na loteria. E durante muito tempo fiquei me questionando quais seriam as condições. Seria a forma de pedir? Seria pedir a coisa certa?

Lembrei-me novamente dessa escritura. Vou compartilhar com vocês o que acredito, mas ressalto que essa é apenas minha forma de ver e diversas são as pessoas e diversas as interpretações. Hoje acredito que Deus se referia aos aspectos que vão muito além de nosso mundo material. Acredito que Ele se referia aos pedidos e anseios da alma. 

Então me perguntei: enquanto vivemos nossa vida nesse mundo, dia a dia, temos consciência do que nossa alma está pedindo?

Crescemos aprendendo a pensar racionalmente, a nos organizar no tempo e a nos comportar nesse mundo material, onde as leis da física e da sociedade imperam. Mas quantas coisas desconhecemos nos demais âmbitos da vida? O que sabemos sobre energia e espiritualidade? E o que sabemos sobre nossa própria essência nesses outros mundos? Quanto de nós passa despercebido de nossa consciência?

Sei muito pouco sobre tudo isso, mas posso relatar o que sinto através de minhas próprias experiências pessoais. As questões da alma não funcionam como nossos aspectos físicos. Não podemos aplicar os mesmos parâmetros, proporções ou conceitos. Muito do que aprendemos precisa ser desaprendido. Há muito que se desconstruir. A alma não consegue ser forçada, enquadrada ou moldada. Acredito que possivelmente não se aplicam as mesmas leis, nem as mesmas concepções de certo e errado. Pensando em minhas próprias experiências, penso que muitas vezes o que escondemos aparece, o que reprimimos escapa. Não há nada que possa ser escondido ou ignorado, pois cada coisa precisa do seu lugar. E cada conflito pede por sua resolução.

Acredito ainda que muitas vezes o nosso consciente pede exatamente pelo oposto de nossa alma. Fiquei pensando então como poderia minha alma estar pedindo por algo que eu não quero. Acredito que a alma pede pela resolução do conflito, mesmo que isso signifique atrair o conflito em si. E talvez por isso nos vemos repetidas vezes na mesma situação que tanto tentamos evitar. Não acredito que essa seja a única forma, mas talvez foi a única encontrada naquele momento.

E quando por fim o conflito emerge e consegue se apresentar em nosso mundo consciente, presos em nossa consciência material relutamos, estagnamos, travamos e encontramos culpados. Não nos damos a oportunidade de extrair daquela experiência tudo o que precisamos para nosso crescimento individual. Não nos deixamos curar. Não estabelecemos a ligação entre as diversas faces do nosso eu. Não confiamos em nós mesmos. E o conflito aparece, repetidamente, se mostrando de diversas formas, gritando por uma resolução.

Através desses pensamentos,  percebi a necessidade constante de me conectar comigo mesma, de entender meus anseios e conflitos, de procurar tratá-los em meu eu interior. Encontrá-los e curá-los de dentro para fora e não de fora para dentro. Percebi a necessidade de conectar-me à minha alma, de tentar ver as coisas que tanto procuro evitar sobre a perspectiva dela. Algumas coisas simplesmente deixaram de ter tanta importância quando as coloquei no âmbito espiritual.

Que universo infinito de coisas temos para aprender sobre os demais mundos? Quantas de nossas consciências permanecem ocultas de nós mesmos?

Então entendi que nossa porta de comunicação com Deus está sim sempre aberta. E, para mim, ela é um caminho para dentro. Acredito que, quando encontrar a verdadeira sintonia, o que há de vir pela frente já não será motivo de preocupação, pois é um caminho de consciência e entrega, onde o melhor poderá emergir de cada experiência e desafio.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pelo direito de não estar pronta

Eu sempre me orgulhei por fazer coisas que não eram da minha idade. Pela minha coragem. Nos parques, eu acompanhava meus irmãos mais velhos nos brinquedos perigosos, descia nos tobogãs altos, passeava pelas casas do terror e gritava nas montanhas-russas. Lembro muito bem da minha mãe dizendo que eles me incentivavam, me levavam para a frente.

Com o passar dos anos meus irmãos sempre fizeram as coisas antes de mim. Seis e sete anos de diferença são muita coisa. Às vezes eu ainda tentava acompanha-los. Participei da banda do meu irmão, jogava RPG e gostava de ficar com seus amigos, ainda que um pouco fora do grupo.
Por fim, eu fui para a faculdade, cheia de sonhos e ideias na cabeça. A vida e a realidade me deram alguns solavancos e cá estou.

Acho que eu continuei sempre a me cobrar essa força de vontade, esse andar pra frente, nunca parar, buscar algo novo. Sempre me cobrei fazer o que é melhor, custe o que custar. Cortar as amarras e encontrar força.

Fato é que não existe muita diferença entre uma corrida desembestada e uma fuga. Chega um ponto em que a ansiedade se torna insuportável e nada parece suficiente.


E é por isso que a partir de hoje me dou o direito de não estar pronta. Afinal, não sabemos nada dessa vida e o mais certo parece ser viver.